domingo, 22 de julho de 2012

O projeto do protótipo (Primeiro conto)



Aquela poltrona o abraçava como se fosse seu. Ele fazia questão de sentir com a nuca aquele veludo confortável, com estofamento que beirava a perfeição. No apoio de madeira que repousava sobre o braço daquele móvel estava o copo de Martini, servido em um copo de uísque, levemente gelado e sem gelo. O odor de uva, que circulava por suas vias superiores, trazia toques da pipas e dos parreirais de sua infância; já temperatura branda da bebida acentuava o amargo, característico do Maritini. Sua expressão mostrava um leve traço de ferida narcísica e seu olhar estava longe, pensando e conectando ideias. Tinha a certeza que no momento certo teria o insite que precisaria.

Da rua, em um repente, começava a vir o som de mais uma melancolia de Chico Buarque, ao longe, mas ao ouvido dele marcante. O som era do seu, gosto, mas naquele momento o importunava. Muito incomodado, ele levantou-se da poltrona e, numa leve tontura, dirigiu-se direto à janela. Desta vez nem fizera questão de sentir o tapete de alta plumagem que acabara de comprar. 

Já fechada a janela, tornou seu olhar para a poltrona. O vermelho vivo e escuro daquele veludo, quase cor de vinho, parecia duelar com os riscos brancos que atravessavam o estofamento. Um sorriso brotou no canto da boca, ilustrando a da ironia que acabara de ocorrer. Aquela interrupção tinha lhe dado a ideia que, com os olhos compenetrados e orelhas baixas de um guepardo, ele esperava à dias.

- Encontre-me em cinco minutos – Disse ele ao telefone, no qual havia discado quase que automaticamente o número de um de seus contatos.

Eis que dois minutos depois estava numa confortável poltrona de Starbucks com Silvia. Seu sorriso irônico escondia mais uma missão que ela fazia questão de anotar em seu tablet, ainda com a película protetora de fábrica. Mal podia esperar ela para registar mais uma ideia surpreendente em suas planilhas e agendas. Com muita calma e pouca preocupação em relação à expectativa dela ele começou a descrever:

- Se eu cruzar o oceano, à velocidade do som, poderia alcançar Manhatan em até três horas. Lá eu consigo encontrar quem eu preciso para construir meu protótipo. Não me importa quem tu vai chamar, quero dois engenheiros mecânicos e um físico teórico. Leve também um Designer, mas um menos chato, o mais calado possível, por favor. Mais interrupções nos meus desenhos e eu bato em alguém!

Ela conteve o “arregalamento” dos seus olhos. Deveria estar acostumada àquela transparência no trato, mas sua alma boazinha não conseguia entender estas pequenas faltas de empatia daquele homem tão astuto. Sua excitação em botar a mão nas partes desconexas daquele projeto que estava recebendo em primeira mão, era muito maior do que estas surpresas de aspecto comportamental. Fazia questão de suprimir aqueles toques espontâneos de repulsa para concentrar sua energia em sua engenhosidade própria. Bastava olhar fundo nos olhos dela e ouvir algumas de suas perguntas e já se podia perceber tal engenhosidade na condução criativa e de pulso firme de cada uma das tarefas que englobavam aquele contexto que, curiosamente, não  se conseguia ainda entender onde iria chegar.


Estavam todos lá reunidos. Nos últimos três dias, Maiquel não dormira mais que três horas. Quando tinha sono, também tinha ideias que não podia deixar de escrever. Quando as ideias sanavam, o sono havia sumido. Quando finalmente repousava, o telefone tocava. Seu corpo já não via a hora de achar algum relaxamento, mas sua mente pulsava naqueles dias de gestação e luz. O Martini levemente gelado e sem gelo já se transformara em café à francesa, coca cola, cappuccino, barras de chocolate, Redbull e café à francesa novamente.

Eduardo e Carlos se olhavam de canto de olho, enquanto, juntos, faziam esboços e cálculos no mesmo papel de projeto. Ao centro, linhas firmes e números bem desenhados. Às bordas, letras foscas escritas a lápis que, por sua vez, eram apagadas e escritas novamente em traços quase aleatórios. A ponta do lápis empurrava os pedaços de borracha que acumulavam sobre o papel, dando espaço a uma caligrafia que mais parecia nativamente criptografada, codificada. De alguma forma se entendiam, tinham que.

Silvia não continha sua ansiedade em ver tanto papel e transpunha os principais traços ao seu tablet. Uma cópia era automaticamente copiada para o tablet de Eduardo via Dropbox. Eduardo, por sua vez, constantemente navegava entre estes dois mundos, sempre inclinado aos meios menos tradicionais. Carlos continuava lá, sempre rabiscando qualquer coisa em seu bloquinho. Ficava cuidando as ações do colega com a astúcia de um lobo velho. Sempre achava que Eduardo queria se mostrar o mais esperto e se destacar. Por que ele, um engenheiro com mestrado e experiência ia se preocupar com um rapaz novo, geração Y?

Aquele teatro de egos era um circo para Maiquel, que agora, no canto da sala, segurava uma latinha de suco de uva japonês, levemente gelado. Logo ao lado do copo, uns quadrinhos de queijo processado, já úmidos por estarem à meia tarde esperando para serem comidos. A outra mão, fechava-se em frente a sua boca, com exceção do dedo indicador, que se estendia tapando seus lábios e do dedão, que apoiava a cabeça pressionando a mandíbula. Aquela concentração era evidente. Nem ele entendia como conseguia apreciar aquele teatro de comportamentos, atentar-se ao trabalho que eles estavam fazendo e ainda manter o fluxo de pensamentos e criações. Era como estar com um olho na Pepsi e outro no pastel, ou como ele mesmo dizia de forma bem humorada e quase irônica: “um olho no peixe e outro no gato”.

Eduardo continuava ali, a jogar entre os aplicativos mirabolantes de engenharia do seu brinquedinho eletrônico e os cantos do papel quase rasgados de tanta borracha. Olhava para Silvia, que o tempo todo operava o MacBook. Ela deixava transparecer nitidamente a adoração por aquela tecnologia. O operava como uma menina que brincava com sua boneca de porcelana. Eles trocavam mensagens, cálculos, imagens e mantinham aquela comunicação síncrona.

Carlos veio com um grande círculo, desenhado à esquerda do papel, bem na faixa divisória entre os rabiscos e o “passado a limpo”. Tenso! Com suas palavras técnicas, precisas e absolutamente firmes, descreveu a porta na qual estava pensando. Pronto, ali estava uma proposta ainda crua. Se fosse vinda de Eduardo, não há dúvidas que Carlos já estaria pensando “que sandice esse guri está inventando”. Mas ironicamente as coisas transcorriam diferentes. Eduardo já endoidecido procurava por detalhes mecânicos para incrementar a ideia de usar uma estrutura redonda para a porta.

– Claro, faz sentido, uma estrutura não isobárica, uma porta que distribui de forma uniforme a pressão, claro! Mas como abri-la? – Perguntava ele resmungando como um velho.

- Silvia, tu conhece alguém com conhecimento especifico nesse tipo de estrutura?
- Hmmm... mês passado trabalhei com um especialista em estruturas a vácuo em um projeto de...
- Isso, será que tu conseguia nos abrir um canal com ele?
- Claro, xá comigo!

Aquela conversa durou menos de 15 segundos, coisa para inquietar qualquer Baby Boomer (geração de profissionais dos anos 60). Eduardo tinha ciência que estava sendo ousado. Ele era especialista apenas, não decisor e sequer perguntou se poderia acionar outro contato. Solicitar a ajuda da Silvia então foi ainda mais ousado, mas estava no sangue dele essa atitude. Os cantos dos olhos de Carlos, obviamente, continuavam queimando de tanto observá-los. Se uma guerra estava sendo criada ali, Carlos compraria a briga e Eduardo não estaria nem aí.


Horas e horas passaram e Maiquel já estava à mesa, ajudando a finalizar o trabalho de perto. Continuava sem se importar com os preciosismos dos cálculos ou dos retoques de acabamento. Sabia trabalhar no conceito, construir a alma daquela concepção e contava com ajuda de bons especialistas em engenharia e gestão de projetos para que pudesse usar com maestria suas habilidades. Agora era ele que estava no centro do palco e os outros três à sua volta fazendo anotações e provendo respostas rápidas.

Eduardo e Silvia confabulavam em uma velocidade que nem Carlos nem Maiquel conseguiam acompanhar. As fórmulas e os algoritmos voavam de um tablete para outro. Formaram ali uma micro-sub-equipe e funcionavam no mesmo ritmo. Às três da manhã, o último e longo gole, do então Martini que habitava o copo de Maiquel, foi tomado. Seus ombros baixavam e, quase imediatamente, os outros seis ergueram-se. Era o momento de saber se a concepção estava completa.

Os olhos azuis de Eduardo baixaram, exaustos. Conseguia ver, de forma muito embaralhada, aquela pilha de mensagens do seu tablet. Todas elas cheias de informações técnicas sobre o projeto e vindas de um contato não identificado. Ao canto da tela, em um esforço já quase sem energia, apertou o botão “Salvar” e digitou “Silvia”. Já no mesmo embalo, associou o contato dela a um lembrete, programado para o domingo à tarde. Pensou brevemente sobre o que falaria com ela longe do alcance dos olhos e ouvidos de Maiquel e Carlos. Riu, então, como um menino. Largou o aparelho sobre a pia, se olhou no espelho do banheiro e assustou-se ao ver a expressão tão moída. Tirou a última peça de roupa e entrou no banho. Dormiu como um anjo aquela noite.

Marcel Nascimento - 22/07/2012 00:40

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Banho


Pelas tardes de pinhão da serra, seus dedos deslizam por sobre a beleza do seu corpo. Como que acompanhando uma valsa de Tchaikovski, o sabonete sente-se acariciado por aquela pele macia e, por entre suas pernas lisas e trabalhadas, voa por aquele toboágua de beleza. Em risos de delírio, aproxima-se da realidade.




Agora tenso, com cuidado, fita as unhas sem esmalte e aquelas deformidades que ainda choram. Elas são o preço pago por um cisne flutuante de ponta a ponta do palco. Agora, em seu momento de intimidade, lamenta não ter sido menos bela, para que sua alegria se estendesse mais.

Marcel Nascimento – 18/07/2012 14:10

Névoa


A névoa, que por entre as arvores se dissolve, assusta os olhos daquele que, como um gato assustado, espreita, como uma presa, por detrás da toca do tatu. Passo a passo ele se aproxima, com botas sujas, respiração calma e silenciosa.

Sua arma formiga em sua mão, parece que os dois têm a mesma intenção. O cabo de madeira, já velha e gasta, agora aponta para aquele gato imaginário, ainda não visto. Sua tromba de ferro estende-se por entre arbustos e teias de aranha e flutua com a perversidade de seu dono.

Assustado, ele corre. Teme por sua vida e a de seus convives. Do abacateiro que, velho, já curvou-se sobre o telhado, ele pula na varanda. Na estabanação de um bichano, acaba por acabar com as orquídeas.

Marcel Nascimento – 18/07/2012 14:00

domingo, 8 de julho de 2012

English version of the last poem

Attending to a dear friend who doesn't speak portuguese, here it is my translation of my last poem:


Missing you, missing me

Sit by mt side and stay with me
Like you could be here
Let me tell you about my day
It's been so long and there's so much to tell

In this bunch of events and feelings
I've lost myself so many times and looked for a map
I forgot to look inside and search for you
I forgot that noone could unsderstand me better than you, light of my feeling's fountain
That since hard times of no much wather, projected me far away
And let my shy cryies be heard by the world

Let me feel your body and say that I'm yours
Let me tie the ties so long untied
And imagine that this distance doesn't exist
To feel your presence like source of life
And without any reason, to feel this moment with you
To forget reality and moral obligations
To feel only what unites us, that if far beyond our comprehension

I wanted so much to know how you are
Cause I wanted you to be somehow
Cause the emptiness of an end just leave me unprotected
I lost the contect with you and later with myself
I walked on the streets with no destiny and no looking ahead
Trying to undestand darkness without light
And to create love images where there we just dark

When I search for kisses and affection
I'm looking for you in the most
To miss you affection makes me blind even for sex
How can I bag you to be with me?
To whom can I beg?
In these last lines, I know I bag to myself
The strenth that creates you like a base-part of me
Your son and living seed

Marcel Nascimento 06/25/2012 6:10pm

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Tua falta, minha falta

Senta do meu lado e me faz companhia
Como se tu pudesse estar junto comigo
Me deixa contar o meu dia
Faz tanto tempo que não conversamos e há tanto pra contar

Nesse emaranhado de acontecimentos e sentimentos
Tantas vezes me perdi e tentei me achar em um mapa
Esqueci tanto de olhar pra dentro e te buscar dentro de mim
Esqueci que ninguém poderia me entender melhor que tu, luz da minha fonte de sentimentos
Que, desde meu tempo de águas rasas, projetou meu reflex ao longe
E deixou que o meu choro tão acanhado fosse captado pelo mundo

Deixa-me sentir teu peito e dizer que sou teu
Me deixa atar os laços que a tanto estão desatados
E imaginar que este distanciamento não aconteceu
Sentir a tua presença como a fonte de vida
E sem qualquer motivo ou razão, sentir este momento contigo
Esquecer que temos realidades e deveres morais
Somente sentir aquilo que nos une e que está além do que podemos entender

Eu queria tanto saber como tu tá
Porque queria que tu estivesses de alguma forma
Porque esse vazio de um fim só me deixa desprotegido
Perdi o contato contigo e logo comigo mesmo
Andei por becos sem destino e sem olhar pra frente
Tentando entender o escuro sem uma luz
E criar imagens de amor onde minha visão só via o preto

Quando hoje busco os beijos e os carinhos
Em imensa parte estou te procurando
A falta do teu conforto me impede de ver o próprio sexo
Como posso implorar que tu esteja comigo?
A quem devo implorar?
Já nestas últimas linhas, sei que imploro a mim mesmo
E à força que te cria como parte-base do meu eu
Teu filho e semente viva

Marcel Nascimento 25/06/2012 18:10

domingo, 24 de junho de 2012

Os três epitáfios


Don Quixote! Que entre paixões e valentia, abraço ou mundo com os tentáculos da loucura e viveu com bravura os sonhos utópicos que os acomodados jamais viverão.

Dulcinéia! Que aos olhos do mundo é gordinha, aos olhos de quem a amou louca e lucidademente, foi o mais belo perfume exalado pelas lágrimas do amor.

E eu, Sancho Pança! Amante dos que amam e anjo do sonho dessa gente que teve a graça e a ousadia de se entregar de fato à vida.

Marcel  Nascimento 21/06/2012 16:00 - Parte do texto escrito para as cenas do Recital da Lizandra em 23/06

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Pai


Vem com o olhar repreensor
Com as palavras duras
Busca o melhor que pensou
E sem muitas censuras
Conta o que tu já ousou
E me acolhe com amor

As lágrimas que não saem
Também são minha imaginação
Mas me cuida como parte tua
Me tem como criação
Como parte viva de tanto zelo
E em uma rigidez quase crua
Mostra que não és por acaso
Que com vergonha me afasto
Pois a perda seria cruel
Talvez além do que imagino
Mas além disso, me dás tino
Pra suportar esta angustia
De não conseguir te abraçar
E apenas em versos me faz chorar
Por sentimento e não por falta de astúcia
Por admirar-te e gostar e ti
E com toda ceticidade
Em meu inconsciente da liberdade
Imaginar-te como meu destino


Marcel Nascimento 21/06/2012 23:46