Aquela poltrona o abraçava como se fosse seu. Ele fazia
questão de sentir com a nuca aquele veludo confortável, com estofamento que
beirava a perfeição. No apoio de madeira que repousava sobre o braço daquele
móvel estava o copo de Martini, servido em um copo de uísque, levemente gelado
e sem gelo. O odor de uva, que circulava por suas vias superiores, trazia
toques da pipas e dos parreirais de sua infância; já temperatura branda da
bebida acentuava o amargo, característico do Maritini. Sua expressão mostrava
um leve traço de ferida narcísica e seu olhar estava longe, pensando e
conectando ideias. Tinha a certeza que no momento certo teria o insite que
precisaria.
Da rua, em um repente, começava a vir o som de mais uma
melancolia de Chico Buarque, ao longe, mas ao ouvido dele marcante. O som era
do seu, gosto, mas naquele momento o importunava. Muito incomodado, ele
levantou-se da poltrona e, numa leve tontura, dirigiu-se direto à janela. Desta
vez nem fizera questão de sentir o tapete de alta plumagem que acabara de
comprar.
Já fechada a janela, tornou seu olhar para a poltrona. O
vermelho vivo e escuro daquele veludo, quase cor de vinho, parecia duelar com
os riscos brancos que atravessavam o estofamento. Um sorriso brotou no canto da
boca, ilustrando a da ironia que acabara de ocorrer. Aquela interrupção tinha
lhe dado a ideia que, com os olhos compenetrados e orelhas baixas de um
guepardo, ele esperava à dias.
- Encontre-me em cinco minutos – Disse ele ao telefone,
no qual havia discado quase que automaticamente o número de um de seus
contatos.
Eis que dois minutos depois estava numa confortável
poltrona de Starbucks com Silvia. Seu sorriso irônico escondia mais uma missão
que ela fazia questão de anotar em seu tablet, ainda com a película protetora
de fábrica. Mal podia esperar ela para registar mais uma ideia surpreendente em
suas planilhas e agendas. Com muita calma e pouca preocupação em relação à
expectativa dela ele começou a descrever:
- Se eu cruzar o oceano, à velocidade do som, poderia
alcançar Manhatan em até três horas. Lá eu consigo encontrar quem eu preciso
para construir meu protótipo. Não me importa quem tu vai chamar, quero dois
engenheiros mecânicos e um físico teórico. Leve também um Designer, mas um
menos chato, o mais calado possível, por favor. Mais interrupções nos meus
desenhos e eu bato em alguém!
Ela conteve o “arregalamento” dos seus olhos. Deveria
estar acostumada àquela transparência no trato, mas sua alma boazinha não
conseguia entender estas pequenas faltas de empatia daquele homem tão astuto.
Sua excitação em botar a mão nas partes desconexas daquele projeto que estava
recebendo em primeira mão, era muito maior do que estas surpresas de aspecto
comportamental. Fazia questão de suprimir aqueles toques espontâneos de repulsa
para concentrar sua energia em sua engenhosidade própria. Bastava olhar fundo
nos olhos dela e ouvir algumas de suas perguntas e já se podia perceber tal
engenhosidade na condução criativa e de pulso firme de cada uma das tarefas que
englobavam aquele contexto que, curiosamente, não se conseguia ainda entender onde iria chegar.
Estavam todos lá reunidos. Nos últimos três dias, Maiquel
não dormira mais que três horas. Quando tinha sono, também tinha ideias que não
podia deixar de escrever. Quando as ideias sanavam, o sono havia sumido. Quando
finalmente repousava, o telefone tocava. Seu corpo já não via a hora de achar
algum relaxamento, mas sua mente pulsava naqueles dias de gestação e luz. O
Martini levemente gelado e sem gelo já se transformara em café à francesa, coca
cola, cappuccino, barras de chocolate, Redbull e café à francesa novamente.
Eduardo e Carlos se olhavam de canto de olho, enquanto,
juntos, faziam esboços e cálculos no mesmo papel de projeto. Ao centro, linhas
firmes e números bem desenhados. Às bordas, letras foscas escritas a lápis que,
por sua vez, eram apagadas e escritas novamente em traços quase aleatórios. A
ponta do lápis empurrava os pedaços de borracha que acumulavam sobre o papel,
dando espaço a uma caligrafia que mais parecia nativamente criptografada,
codificada. De alguma forma se entendiam, tinham que.
Silvia não continha sua ansiedade em ver tanto papel e transpunha os principais traços ao seu tablet. Uma cópia era automaticamente copiada para o tablet de Eduardo via Dropbox. Eduardo, por sua vez, constantemente navegava entre estes dois mundos, sempre inclinado aos meios menos tradicionais. Carlos continuava lá, sempre rabiscando qualquer coisa em seu bloquinho. Ficava cuidando as ações do colega com a astúcia de um lobo velho. Sempre achava que Eduardo queria se mostrar o mais esperto e se destacar. Por que ele, um engenheiro com mestrado e experiência ia se preocupar com um rapaz novo, geração Y?
Aquele teatro de egos era um circo para Maiquel, que
agora, no canto da sala, segurava uma latinha de suco de uva japonês, levemente
gelado. Logo ao lado do copo, uns quadrinhos de queijo processado, já úmidos
por estarem à meia tarde esperando para serem comidos. A outra mão, fechava-se
em frente a sua boca, com exceção do dedo indicador, que se estendia tapando
seus lábios e do dedão, que apoiava a cabeça pressionando a mandíbula. Aquela
concentração era evidente. Nem ele entendia como conseguia apreciar aquele
teatro de comportamentos, atentar-se ao trabalho que eles estavam fazendo e ainda
manter o fluxo de pensamentos e criações. Era como estar com um olho na Pepsi e
outro no pastel, ou como ele mesmo dizia de forma bem humorada e quase irônica:
“um olho no peixe e outro no gato”.
Eduardo continuava ali, a jogar entre os aplicativos mirabolantes
de engenharia do seu brinquedinho eletrônico e os cantos do papel quase
rasgados de tanta borracha. Olhava para Silvia, que o tempo todo operava o
MacBook. Ela deixava transparecer nitidamente a adoração por aquela tecnologia.
O operava como uma menina que brincava com sua boneca de porcelana. Eles
trocavam mensagens, cálculos, imagens e mantinham aquela comunicação síncrona.
Carlos veio com um grande círculo, desenhado à esquerda
do papel, bem na faixa divisória entre os rabiscos e o “passado a limpo”.
Tenso! Com suas palavras técnicas, precisas e absolutamente firmes, descreveu a
porta na qual estava pensando. Pronto, ali estava uma proposta ainda crua. Se
fosse vinda de Eduardo, não há dúvidas que Carlos já estaria pensando “que
sandice esse guri está inventando”. Mas ironicamente as coisas transcorriam
diferentes. Eduardo já endoidecido procurava por detalhes mecânicos para
incrementar a ideia de usar uma estrutura redonda para a porta.
– Claro, faz sentido, uma estrutura não isobárica, uma porta
que distribui de forma uniforme a pressão, claro! Mas como abri-la? –
Perguntava ele resmungando como um velho.
- Silvia, tu conhece alguém com conhecimento especifico
nesse tipo de estrutura?
- Hmmm... mês passado trabalhei com um especialista em
estruturas a vácuo em um projeto de...
- Isso, será que tu conseguia nos abrir um canal com ele?
- Claro, xá comigo!
Aquela conversa durou menos de 15 segundos, coisa para
inquietar qualquer Baby Boomer (geração de profissionais dos anos 60). Eduardo
tinha ciência que estava sendo ousado. Ele era especialista apenas, não decisor
e sequer perguntou se poderia acionar outro contato. Solicitar a ajuda da
Silvia então foi ainda mais ousado, mas estava no sangue dele essa atitude. Os
cantos dos olhos de Carlos, obviamente, continuavam queimando de tanto
observá-los. Se uma guerra estava sendo criada ali, Carlos compraria a briga e
Eduardo não estaria nem aí.
Horas e horas passaram e Maiquel já estava à mesa, ajudando
a finalizar o trabalho de perto. Continuava sem se importar com os preciosismos
dos cálculos ou dos retoques de acabamento. Sabia trabalhar no conceito,
construir a alma daquela concepção e contava com ajuda de bons especialistas em
engenharia e gestão de projetos para que pudesse usar com maestria suas
habilidades. Agora era ele que estava no centro do palco e os outros três à sua
volta fazendo anotações e provendo respostas rápidas.
Eduardo e Silvia confabulavam em uma velocidade que nem
Carlos nem Maiquel conseguiam acompanhar. As fórmulas e os algoritmos voavam de
um tablete para outro. Formaram ali uma micro-sub-equipe e funcionavam no mesmo
ritmo. Às três da manhã, o último e longo gole, do então Martini que habitava o
copo de Maiquel, foi tomado. Seus ombros baixavam e, quase imediatamente, os
outros seis ergueram-se. Era o momento de saber se a concepção estava completa.
Os olhos azuis de Eduardo baixaram, exaustos. Conseguia ver,
de forma muito embaralhada, aquela pilha de mensagens do seu tablet. Todas elas
cheias de informações técnicas sobre o projeto e vindas de um contato não
identificado. Ao canto da tela, em um esforço já quase sem energia, apertou o
botão “Salvar” e digitou “Silvia”. Já no mesmo embalo, associou o contato dela
a um lembrete, programado para o domingo à tarde. Pensou brevemente sobre o que
falaria com ela longe do alcance dos olhos e ouvidos de Maiquel e Carlos. Riu,
então, como um menino. Largou o aparelho sobre a pia, se olhou no espelho do
banheiro e assustou-se ao ver a expressão tão moída. Tirou a última peça de
roupa e entrou no banho. Dormiu como um anjo aquela noite.
Marcel Nascimento - 22/07/2012 00:40
